Artigos de Jornal
Os ruídos e a busca da perfeição
Uma vez em São Paulo fui visitar um colega num escritório em um edifício alto no centro da cidade. Quando o elevador abriu a porta ouvi um ronco semelhante a um motor acelerado no andar. Era o barulho dos carros, ônibus e caminhões na rua ecoando nos edifícios vizinhos. Quase não podemos conversar.
Salvador é uma cidade barulhenta, poluída, não só pelo tráfego de motos sem silenciosos, como pelos carros de propaganda e automóveis com alto-falantes enormes que rodam pela cidade e param em postos de gasolina para seus donos se encontrarem nas inconveniências. Paredões ruidosos provocam o desassossego em muitos bairros. Nos cinemas, muitas vezes tenho que fechar os ouvidos pelo som alto que os operadores na cabine de projeção jogam na plateia. A fiscalização, nos dois casos, é só no papel.
Para os comunicólogos, o ruído não é só produzido pelos humanos e suas máquinas. É qualquer interferência que distorce a transmissão de uma mensagem de um emissor (quem fala ou escreve) para um receptor (quem ouve ou lê). Ruídos podem ser de natureza semântica como o uso de palavras ambíguas, psicológica com o estado emocional do emissor ou do receptor que se refletem no tom de voz, ou por diferenças de contextos culturais que dificultam o entendimento e levam a interpretações equivocadas. Felizmente há especialistas que procuram minimizar esses ruídos.
Entre as reivindicações da população e as ações dos administradores municipais há um ruído ensurdecedor. A população pede mais espaços públicos e áreas verdes, e a prefeitura destrói estes espaços para fazer viadutos que ligam um engarrafamento a outro e cria mais estacionamentos estimulando o crescimento da frota na contramão do que se faz em todo o mundo. Salvador é uma das cidades mais viadutorizadas do mundo. Nossos técnicos são criativos, criaram viadutos ornamentais na Fonte Nova, ou que servem de terminal de táxis e carros de aplicativos no Aeroporto e um que volta para trás na Avenida Bonocô. Viadutos e passarelas mecanizam a cidade e exaurem os pedestres em rampas intermináveis.
Tive um professor na Faculdade de Arquitetura, o engenheiro Guilherme de Souza Ávila, que gostava de música clássica. Era a época dos long-plays e os aparelhos comerciais eram muito rudimentares. Ele construía seus próprios amplificadores e caixas de som com os melhores componentes disponíveis no país. Procurava corrigir as distorções de graves e agudos e as reverberações impróprias. Sua busca de perfeição era tal que ele uma vez me disse: tive que redescobrir a música, porque só estava ouvindo as distorções da reprodução.
“Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter [...] O perfeito é o desumano porque o humano é imperfeito”. Fernando Pessoa, pelo heterônimo Bernardo Soares, no Livro do Desassossego.