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Como se curar do medo de avião
O avião é um dos transportes mais seguros do mundo. Não se compara com os automóveis e ônibus que matam diariamente dezenas de pessoas neste país, ou mesmo os barcos, especialmente na Amazônia, cujos acidentes matam dezenas de pessoas. Quando um ultraleve cai é noticiado em todas as mídias, ao contrário do que acontece com um carro que cai numa ribanceira e mata seus ocupantes. Ninguém mais liga, de tão banal que ficou. Más os Boeings e Airbus são escandalosos, quando caem matam 300 ou mais passageiros.
Todo mundo tem medo de avião e eu não sou uma exceção. Desde criança convivo com isso, pois minha mãe era uma apavorada com os aviões. Ela descrevia seu primeiro voo num Douglas DC-3 como uma tragédia. Os passageiros resignados pareciam estarem entrando numa câmara de gás. Durante o voo o avião despencou várias vezes em vácuos, com pacotes e aeromoças voando no seu interior. Por isso ela obrigava meu pai a só viajar de navio ou de ônibus para seus múltiplos compromissos. Mesmo com os aviões a jato que raramente sofrem turbulências, ela não voltou a entrar num avião.
Incumbido de escrever um livro sobre relações raciais na Bahia, meu pai recepcionou um diretor da UNESCO e sua esposa na nossa cidade. Quando o casal voltava para o Rio para a conexão com Paris, no caminho para o aeroporto encontraram umas mulheres de santo distribuindo pipocas. Meu pai recebeu seu punhado e comeu com o visitante ilustre, mas a senhora discretamente, pouco depois do carro partir, jogou as pipocas fora.
Meu pai, sentado no banco da frente explicou que aquilo era uma oferenda de Omolu, o orixá da saúde, e para seus seguidores rejeitar a oferenda dava azar. Quando chegaram no aeroporto a senhora surtou querendo voltar para pegar as pipocas e se negando a entrar no avião. O problema só foi resolvido quando Seu Almiro, o motorista, arranjou um ramo de arruda e deu um banho de folha na senhora em pleno saguão do aeroporto e ela aliviada entrou no avião.
Para os psicólogos, a fobia ao avião ataca especialmente pessoas muito determinadas e donas de si, que não querem delegar a terceiros sua segurança pessoal, no caso os pilotos. Um amigo meu que tinha que voar frequentemente por razões profissionais sofria muito com as viagens e resolveu procurar um psicanalista. Mergulhando nos sonhos da infância, o avião se transformou para ele naquele espaço redondo aconchegante do útero materno e para ele sair do avião só tirado a fórceps.
Já os psicólogos comportamentais adotam outro tratamento. Convidam o paciente a entrar na cabine do avião e o comandante, adredemente avisado, manda ele se sentar na poltrona do copiloto e explica para que servem aquelas centenas de reloginhos, botões e alavancas. De repente ele se retira para ir pegar sua mochila. O paciente desesperado se ajoelha no corredor e implora para ele voltar. Ridículo, mas é um tratamento infalível !