Artigos de Jornal


Niemeyer: compasso e melodia

  • 23 de Dezembro de 2012

Qual seria a contribuição de Niemeyer para arquitetura universal? Nos anos 30 ele rompia ineditamente com a rigidez racionalista do Modernismo, reintroduzindo o sentimento na arquitetura. A emoção se expressa em sua obra pelas curvas em oposição à reta e ao ângulo reto, mas em perfeita harmonia com as razões do concreto armado. Hábil desenhista, ele juntou a formação numa Escola de Belas Artes com a técnica dos engenheiros. Sua obra é inseparável de grandes estruturalistas, como o poeta Joaquim Cardozo e o Prof. José Carlos Sussekind.

Não sei por que quando ouço as Bachianas Brasileiras me sinto surfando nas ondas de Niemeyer. Como Vila Lobos ele articulava o chorinho com Bach. Seu compasso eram essencialmente carioca e nada tinha a ver com o esquadro de Le Corbusier, salvo o fato de ter sido exaltado por ele. A frondosa obra de Oscar Niemeyer, embora divulgada em fotos e vídeos, carece de estudos à altura da sua contribuição à Arquitetura. Salvo os textos de Stamo Papadaki, do inicio dos anos 50, praticamente tudo que se escreveu sobre sua obra é superficial. Este artigo procura modestamente contextualizar sua obra no tempo e no espaço.

Niemeyer dominou a composição arquitetônica como poucos maestros suas orquestras. É preciso não esquecer que a arquitetura está mais próxima da musica do que de qualquer outra arte, pela sua construção envolvente, pelo seu desenvolvimento sinfônico em vários planos superpostos, pelo ritmo de suas colunatas e aberturas, pela percussão dos passos na madeira, pelo brilho dos metais e cristais, pelos crescentes de luzes e pela harmonia do interior com o exterior e das partes com o todo.

Nos palácios da Alvorada e do Planalto, ele resgatou o valor rítmico das colunas, meros suportes camuflados na arquitetura contemporânea, a ponto de André Malraux, Ministro da Cultura da França, dizer que depois das colunatas gregas aquelas eram as mais belas que havia visto. Mas Niemeyer, um perfeccionista, não se satisfazia com a cadência chã das colunatas clássicas, que ele mesmo havia reproduzido nesses dois palácios e no Itamaraty, e fez variar seu compasso na sede do Grupo Mondadori, na Itália, criando uma das mais harmônicas colunatas do mundo.

A modulação melódica de suas coberturas e marquises se inspirava, como ele não se cansava de repetir, na silhueta dos morros, na sinuosidade dos rios e praias de sua cidade, no movimento das ondas e nas curvas sensuais da mulher brasileira. Esta foi a inspiração também de Burle Marx e de músicos cariocas contemporâneos, como Tom Jobim, Roberto Menescal, Billy Blanco e Chico Buarque, eles também iniciados na arquitetura.

Recorde-se Tom e Vinícius no Samba do Avião: “minha alma canta/ vejo o Rio de Janeiro... seu mar/ praias sem fim” e o Corcovado emoldurado por uma janela ou ainda a “moça do corpo dourado/ do sol de Ipanema”. A praia e suas sereias são a inspiração de Braguinha e Dorival Caymmi em duas odes a Copacabana como a Guanabara, seu mar e ilhas são o mote de Roberto Menescal e Ronaldo Boscoli em O Barquinho, “que desliza sem parar no azul macio do mar”.

Boémio quando jovem, Niemeyer sempre curtiu a dança e a música e homenageou as escolas de samba cariocas com um arco do triunfo no Sambódromo, onde desfilou homenageado por uma escola. A reciproca também é verdadeira, a música pode se transformar em desenho. O musicólogo baiano Paulo Lima tem interessante ensaio mostrando como Tom Jobim em “Wave” riscou na pauta musical o movimento das ondas que cantava.

Não se pode sujeitar criticamente a obra ao homem. Niemeyer, um cidadão engajado politicamente, que doou o seu escritório em 1946 para a sede do PCB, nunca acreditou em “arte social”, mas dizia que mesmo trabalhando para o poder e a burguesia se confortava em saber que seus monumentos despertava o sentimento de beleza no povo. Em Brasília, há duas semanas, pude constatar que havia todo tipo de gente, inclusive trabalhadores, se despedindo desse criador infatigável, que nunca tirou férias e não precisava dormir para sonhar. Morreu aos 105 anos reclamando que queria trabalhar.

Caderno Cultural de A Tarde, de 23/12/12


Últimos Artigos