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Bel Borba + 40
Bel Borba está comemorando 40 anos de arte num estacionamento coberto do
Shopping da Bahia. Na impossibilidade de expor na rua, como no Time Square, pela
insegurança de nossa cidade, ele expõe num espaço despojado, mais adequado a sua
obra que uma galeria ou museu, onde não se pode tocar nos objetos. Deixemos
esses espaços para as coleções de arte e insossas “instalações”. Sua obra é uma
arte essencialmente pública, das praças, jardins e parques, que dispensa efeitos
de luminotécnica, lhe basta o sol. Obra muitas vezes realizada com a comunidade,
como em Cartagena de Índias e com garis num monte de entulho em Salvador.
Foi nas ruas que conheci esse artista anônimo, que plantou grafites cerâmicos
nos muros abandonados da cidade, com enorme senso lúdico. Senso que ele conserva
até hoje. Sua obra é em grande parte de objetos lúdicos, como carros, motos e
aviões em que as crianças brincam. É difícil classificar sua obra, mas sem
dúvida não é arte conceitual, aquela iniciada por Duchamp com um mictório. Pelo
contrário, ele desmonta objetos prontos, como caldeiras de estaleiros e
barreiras de trafego, para criar novos objetos, sempre figurativos, para melhor
se comunicar com os observadores.
Bel Borba produziu nestes 40 anos fotografias, pinturas e moveis, mas é na
escultura que ele se realiza. Como escultor, ele sabe da vinculação do material
com a obra. Por isso ele chamou sua mostra de “O olhar material”. E quais são
esses materiais? O concreto armado da demolição da Fonte Nova, a chapa
enferrujada do estaleiro e o plástico das barreiras de trafego e das garrafas
pet. Em outras palavras, o lixo. Não é apenas uma atitude ecológica, senão
artística. Há uma beleza selvagem em suas esculturas de concreto com os nervos
de aço expostos e a chapa corroída, diversa, mas não menos nobre que o mármore e
o bronze. Bel Borba é um artista mundial, mas que não abandonou a sua terra.
SSA: A Tarde, 24/04/16