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Thales sem títulos nem referencias

  • 16 de Setembro de 1995

Não pretendo - nem seria o mais indicado – analisar a obra de Thales de Azevedo, o antropólogo, esse médico que invadiu as ciências sociais de mansinho, nem fazer alarde, sacudindo a poeira e pondo em dúvida certezas assentadas sobre nossa colonização, relações raciais e aculturação de imigrantes. Que introduziu no país estudos pioneiros sobre catolicismo popular e temas do cotidiano, como o namoro e a praia. Sobre esse intelectual que, sem abandonar a província, projetou-se nacional e internacionalmente, publicando e dando conferências e cursos no Sul e além-fronteiras, existe um razoável tesouro crítico, que o consagrou ainda em vida, coisa rara, como um dos mais festejados antropólogos brasileiros e venerados cidadãos baianos. Esse reconhecimento, dizia ele com modéstia, devia-se, não ao seu talento, mas ao seu trabalho.
Prefiro revelar aqui um pouco do outro Thales de Azevedo, o Thales da intimidade, sem títulos nem referências, meu pai. Quando comecei a me entender, ele já havia enfiado suas ferramentas médicas em um baú e o enterrado no subsolo da casa da Barra Avenida. Além do porão e da roça, povoados de monstros, piratas e ladrões na nossa imaginação, a casa tinha um outro território proibido, esse de magia, o gabinete de meu pai, onde as crianças só podiam entrar sob os olhares vigilantes dos adultos, para não alterarem a ordenação amorfa, mas precisa, de papéis, desenhos, livros, engenhocas e novidades tecnológicas aplicáveis a seu trabalho, desde câmaras de fole e gravadores de arame até lançamentos recentes como uma xerox de bolso e um processador de texto. Os documentos mais importantes e os objetos de estimação eram guardados em um armário com portas de vidro. A coleção incluía desde uma pequena torá, doada por sua nora Esterzilda, passando por medalhas e condecorações, até um estojo de pintura e uma delicada boneca japonesa de seda, que dormia imperturbável qualquer que fosse a posição em que caísse. Meu pai, quando nos surpreendia bisbilhotando a pandora, nos afastava carinhosamente revivendo o médico: desinfeta, desinfeta!
No gabinete ele passava a maior parte do tempo em que permanecia em casa, inclusive a sesta, que dormia na mesma “chaise long” relaxante que trouxe dos Estados Unidos, em 1953, e que permitia colocar as pernas acima da cabeça. Ali seguia um ritual invariável: respondia à copiosa correspondência, lia e anotava livros, e redigia textos a lápis e os batia com dois dedos na velha Remington, para em seguida recortá-los e remontá-los. Só os artigos de jornal eram datilografados diretamente. Nesses, não deixava de comentar, e assim divulgar e estimular, os lançamentos de livros locais. A rotina só era interrompida para receber ex-alunos e pesquisadores, muitos estrangeiros, que o procuravam para discutir seus trabalhos. Assim, a casa da Barra Avenida passou a ser uma estação obrigatória na rota de toda tese ou ensaio de ciências sociais na Bahia e temas introduzidos por ele no País.
Por maior que fosse a confusão do lado de fora, incluindo-se aí duas reformas e ampliações da casa, nada perturbava sua concentração, tal como o sono da boneca japonesa. Para que isso acontecesse, dona Mariá, diligente e alegremente, administrava tudo: casa, obras – sua verdadeira vocação --, finanças da família, educação dos filhos e festas familiares. Só quando as coisas passavam dos limites, ele era chamado a exercer o pátrio poder, o que fazia de forma persuasiva, mas firme.
O casamento foi para D. Mariá, uma rebelde temperada na rígida disciplina da tia solteirona e altruísta, desde os quatro anos, libertação e realização plena. Como para ele também. Duas personalidades tão diversas quanto complementares, Thales e Mariá lograram fazer uma divisão perfeita de trabalho e assegurarem, um ao outro, total confiança e autonomia. Ele, reflexivo, discreto e com uma curiosidade quase lúdica dedicou-se, com afinco, a construir uma obra que foi aos poucos sendo apropriada por toda a Bahia. Ela, perspicaz, empreendedora e sociável, lançou-se com igual empenho a dar apoio a esse plano, criando uma família frondosa de oito filhos, 31 netos e 10 bisnetos, preocupando-se, não apenas com sua unidade, mas com o seu bem-estar e sustentação.
Mas a vida não era só trabalho. Havia também viagens longas ao exterior e férias, na fazenda do tio Carlos em Igreja Nova ou no Sítio da Boa União, e na praia, em Itaparica, Madre de Deus, Itapagipe e Jauá. Dentre a numerosa bagagem preparada, nessas ocasiões, por minha mãe, ele só tinha olhos para a sua sacola com revistas, alguns livros, o chapéu panamá, e o vistoso estojo de pintura. Uma vez instalado, meu pai esquecia os compromissos universitários e dedicava-se a outras atividades, entre as quais o desenho, a pintura e longas prosas com os locais. Voltava com a bagagem aumentada de delicadas paisagens ou marinhas, embora nunca tivesse frequentado um ateliê, alguma poesia de fino humor e um caderno de pertinazes anotações.
Cunhou uma estampa elegante e discreta: cabeleira branca, “blazer” e gravata borboleta. Nos últimos anos, acrescentou uma bengala ao vestiário, pois preferia andar sozinho e empertigado que conduzido por outros. Gostava de prestigiar os lançamentos de livros e vernissages e fazia questão de chegar aos compromissos com pontualidade. Esse era um dos poucos pontos de atrito com minha mãe. Como nunca quis dirigir e para não ter que depender de outros, deslocava-se frequentemente à pé do Conselho Estadual de Cultura, na Graça, para o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, na Piedade, ou para casa, na Barra Avenida, em uma prática salutar cultivada desde a juventude, quando os carros e a prática de esportes eram raros.
Quando na década de 60 as barbas e os cabelos longos voltaram à moda, ele os recebeu com naturalidade, mas fazia questão de distinguir entre barba criada, que ele admirava, e barba crescida, isto é, não feita, que ele detestava. Ainda recentemente, em Jauá, comentava: indecentes não são os biquínis, mas essas barrigas hemisféricas masculinas. Não era apenas um juízo estético, senão moral. Ele não aceitava o desleixo com o corpo e o vestiário, considerando-o um atentado à autoestima e um desrespeito à sociedade.
Um de seus traços mais marcantes era a cordialidade e a tolerância. Católico praticante tinha amigos de todos os credos e até agnósticos e ateus, como Anísio Teixeira e Frederico Edelweiss, dois dos mais próximos. Via na blasfêmia, tão frequente entre os imigrantes italianos que estudou, não uma falta irreparável, senão uma exacerbação de religiosidade. Quando escrevia sobre catolicismo popular e relações do Estado com a Igreja, o fazia com tal isenção e distanciamento que seria difícil imaginar que o autor era um católico engajado. Foi ele e Guilherme de Souza Castro que propuseram, no I Seminário de Cultura da Cidade do Salvador, em 1975, a abolição da licença policial para a prática do candomblé, proposta que se transformaria em lei estadual. No ano seguinte.
Outra virtude sua era o equilíbrio. Enquanto a quase totalidade dos intelectuais católicos se renderam, nos anos 30, ao integralismo, ele preferiu manter distância, sem, contudo, alinhar-se à esquerda dominada pelos comunistas. O tempo lhe daria razão. Condenava em conferências e escritos a injustiça social e todo tipo de discriminação, mas não apoiava a radicalização e a exacerbação dos conflitos sociais e raciais.
Sua tolerância e moderação tinham, porém, limites. Detestava a bajulação, a arrogância e a prepotência, não se curvando a elas. Como diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal da Bahia e indiretamente do Colégio de Aplicação, durante a ditadura militar, conquistou jovens alunos e professores ao garantir a livre expressão das ideias e mandar fechar os portões da faculdade, em mais de uma oportunidade, ante a iminente invasão da tropa federal. Avalizou, ainda, professores, alunos e funcionários, junto à comissão de inquérito sobre subversão na Universidade, inocentado a todos.
Desinteressado por qualquer parcela de poder ou recompensa material, lúcido e atento, rigoroso consigo próprio e generoso com os outros, ele conquistou o respeito e veneração da Bahia e do país. Thales de Azevedo, meu pai, um espírito acima de qualquer vicissitude humana, brilhante e discreto, fruiu, como disse o poeta maior da paixão, Godofredo Filho, “o espanto e o orgulho de ser anjo, sendo homem”.

SSA: A Tarde Cultural, de 16/09/1995.


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