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Salvador, Patrimônio Cultural e Natural

  • 17 de Junho de 2018

Imitando o Rio de Janeiro, de Pereira Passos (1902/06), Salvador sofreu sua primeira grande reforma no governo de J.J. Seabra (1912/16), que tomou posse com o bombardeio do Paço dos Governadores e da Rua Chile e prosseguiu no urbanismo demolidor com o “bota abaixo” das igrejas de Ajuda e São Pedro e mutilação das do Rosário e Mercês, além do Senado da Câmara, junto ao IGHBA. O único protesto foi do abade de São Bento, contra a mutilação de sua igreja. Com a mesma inspiração foi demolida a tricentenária Sé, em 1933, para a instalação do bonde, que só durou 30 anos. Tardiamente Clériston Andrade (1971/75) implodiu a Biblioteca Pública, a Imprensa Oficial e antigo Fórum para a construção do Cemitério do Sucupira. Sepultava-se assim o ciclo da picareta.

Sua segunda grande reforma foi realizada por ACM, o velho, que iniciou seu governo eliminando o que restou da mata atlântica para construir a Av. Paralela. Com o slogan “Aqui, a Bahia constrói o futuro sem destruir o passado” ele esvaziou o centro antigo e criou dois novos: o comercial do Iguatemi e o administrativo do CAB, na maior promoção imobiliária financiada pelo Estado já vista na cidade. Desidratado, o nosso centro antigo possui hoje 1.400 imóveis em ruina ou em perigo de desabamento, segundo a Defesa Civil. Mas justiça se faça, ACM implantou com 20 anos de atraso, numa cidade que havia triplicado de população e mudado seu centro o único plano urbanístico que possuiu. As avenidas de vale de Mário Leal Ferreira se inspiravam nos park ways ingleses. Seu melhor exemplo é a Av. Centenário, construída em 1949. ACM tentou manter as árvores, embora introduzindo outras funções, nas avenidas Vasco da Gama, Juracy Magalhães Jr. e ACM. Mais que isso, ele criou na Av. Paralela um park way de 13 km de extensão com canteiro central com 60 a 90 m de largura, arborizado. A construção das avenidas de vale foi seu grande legado.

Pois bem, os park ways de ACM vem sendo destruídos pelos novos administradores do ciclo da motosserra. Um metrô que poderia ser do tipo cut and cover, como o de Brasília, destruiu a Paralela e dividiu a cidade ao meio. O amplo vale do Bonocô foi depenado e obstruído com um metrô tobogã. A bela Estrada da Rainha, cantada por Diógenes Rebouças em Salvador da BTS no século XIX, foi transformada num elevado intransponível. O pior é que essas intervenções são irreversíveis. Cidade sustentável é aquela da compatibilidade dos vários modais - VLT, BHLS, ônibus e bicicleta - e não de vias segregadas e trepadas, que não se vê em nenhum pais socialmente desenvolvido. É a primeira vez vejo uma mobilização popular e das associações civis pela discussão de um projeto urbano. Isto é politicamente um grande avanço. A política nasceu da discussão da polis, na Grécia.

SSA: A Tarde, 17/06/18


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