Artigos de Jornal
O peru e Papai Noel
Passado o episódio, ela não lamentava o prejuízo, mas não ter podido realizar
o sonho de uma ceia de Natal como antigamente, com o peru à Califórnia sobre a
mesa, os amigos e depois da ceia a dança, queixo-no-queixo, coxa-na-coxa, ao som
da radiola, antes da missa do galo.
O marido rabugento tinha um brechó na periferia. Visitava as feiras de rolo e
velórios em que se dizia amigo do defunto, e se oferecia para comprar seu
enxoval e objetos sem uso da casa. Não era um receptador e por isso gozava de
boa reputação com os tiras da zona, que frequentava à noite.
Naquela véspera de Natal bateu na casa um velho de cabelos e barbas brancas com
uma camisa encarnada e um saco nas costas que parecia um Papai Noel raquítico. O
velho disse à dona da casa que o marido havia mandado entregar aquele peru para
a ceia do Natal. A senhora surpresa mandou o velho colocar o peru no quintal.
Quando o peru saiu do saco: cantou, abriu a cauda em leque e arrastou as asas no
chão à procura de uma perua. A coroa viu naquela dança um presságio.
Agradecida, ela lhe ofereceu água, café e prosa amiga. Ele disse que Seo Dozinho
pediu para ela mandar a radiola que ele iria trocar por uma estereofônica para a
noite do Natal. A mulher o levou até a sala e apontou a radiola. O velho se
agachou, tirou a tomada da parede, um fio enterrado em um vaso com terra e a
antena que subia para o telhado. Acomodou a radiola no saco e o colocou nas
costas. Despediu-se e saiu caminhando pela rua. A coroa anteviu a sala cheia de
amigos, a lapinha, a pista de dança e a nova radiola estéreo.
Quando o marido chegou ao meio-dia reclamando da vida, ela o recebeu com um
beijo mais quente do que de costume e prometeu preparar uma ceia de Natal como
antigamente para a família e amigos. Avisou que depois da ceia queria dançar um
bolero. Ele estranhou tanta amabilidade, mas não disse nada, porque tinha outro
compromisso para aquela noite. Mas tomou um susto quando quis ouvir o
noticiário.
Irritado com a bobeira da mulher, que vivia sonhando acordada, jurou que iria
pegar o ladrão com um amigo policial e dá-lhe um corretivo. Saiu às pressas, sem
nem almoçar. No meio da tarde chegou à casa um jovem bem-apessoado dizendo que
Seo Dozinho estava na Delegacia com o lalau, mas que ele dizia que fora uma
troca de presentes natalinos e queria o peru de volta para entregar a radiola.
Ela, ainda aturdida, mandou o rapaz pegar o peru. Romântica, trocou a
confraternização por um lanche íntimo ao som de boleros. Foi ao armazém, comprou
um vinho e continuou fantasiando. Só despertou de seu sonho lindo quando o
marido voltou para a janta irascível e perguntou se o peru já estava sendo
assado e quem eram os amigos que ela havia convidado.
Moral da estória: o brasileiro não fecha a porta, nem depois de roubado.
SSA: A Tarde de 29/12/2019